Pesquisar este blog

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A Mensagem

Vendo-a afastar-se, ele a examinou incrédulo, com um interesse divertido: “será possível que mulher possa realmente saber o que é angústia?” E a dúvida fez com que ele se sentisse muito forte. “Não, mulher servia mesmo era para outra coisa, isso não se podia negar.” E era de um amigo que ele precisava. Sim, de um amigo leal. Sentiu-se então limpo e franco, sem nada a esconder, leal como um homem. De qualquer tremor de terra, ele saía com um movimento livre para a frente, com a mesma orgulhosa inconseqüência que faz o cavalo relinchar. Enquanto ela saiu costeando a parede como uma intrusa, já quase mãe dos filhos que um dia teria, o corpo pressentindo a submissão, corpo sagrado e impuro a carregar. O rapaz olhou-a, espantado de ter sido ludibriado pela moça tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que acabavam de crescer. Sou homem, disse-lhe o sexo em obscura vitória. De cada luta ou repouso, ele saía mais homem, ser homem se alimentava mesmo daquele vento que agora arrastava poeira pelas ruas do Cemitério S. João Batista. O mesmo vento de poeira que fazia com que o outro ser, o fêmeo, se encolhesse ferido, como se nenhum agasalho fosse jamais proteger a sua nudez, esse vento das ruas.
O rapaz viu-a afastar-se, acompanhando-a com olhos pornográficos e
curiosos que não pouparam nenhum detalhe humilde da moça. A moça que de súbito pôs-se a correr desesperadamente para não perder o ônibus...
Num sobressalto, fascinado, o rapaz viu-a correr como uma doida para não perder o ônibus, intrigado viu-a subir no ônibus como um macaco de saia curta. O falso cigarro caiu-lhe da mão...
Alguma coisa incômoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiança o tomava. Mas o que era?! Urgentemente,
inquietantemente: o que era? Ele a vira correr toda ágil mesmo que o
coração da moça, ele bem adivinhava, estivesse pálido. E vira-a, toda cheia de impotente amor pela humanidade, subir como um macaco no ônibus — e viu-a depois sentar-se quieta e comportada, recompondo a blusa enquanto esperava que o ônibus andasse... Seria isso? Mas o que poderia haver nisso que o enchia de desconfiada atenção? Talvez o fato dela ter corrido à toa, pois o ônibus ainda não ia partir, havia pois tempo... Ela nem precisava ter corrido... Mas o que havia nisso tudo que fazia com que ele erguesse as orelhas em escuta angustiada, numa surdez de quem jamais ouvirá a explicação?
Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava também assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glória, e uma experiência insondável dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome ávida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossível? A moça era um zero naquele ônibus parado, e no entanto, homem que agora ele era, o rapaz de súbito precisava se inclinar para aquele nada, para aquela moça. E nem ao menos inclinar-se de igual para igual, nem ao menos inclinar-se para conceder... Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? para lembrar-se de uma cláusula? para que ela ou 10 outra qualquer não o deixasse ir longe demais e se perder? para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro? Ele precisava dela com fome para não esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne pobre da qual, ao subir no ônibus como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal.
Que é! mas afinal que é que está me acontecendo? assustou-se ele. Nada. Nada, e que não se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilação, nada mais que isso, não havia perigo.
Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Mas dentro desse sistema de duro juízo final, que não permite nem um segundo de incredulidade senão o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua — e tudo agora estava estragado e seco como se ele tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! a mensagem esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele.

CLARICE LISPECTOR. A Mensagem. Em A Legião Estrangeira.
São Paulo, Ática, 1977


domingo, 31 de agosto de 2008

Meu

Minha casa
Minhas roupas
Meus cabelos
Meu estilo
My Love
Minha vida

Onde todos têm tudo eu não quero ter nada!
O grande nada encontrado em poucos (as) (coisas, etc...), só tenho algo que esta aqui, aqui na minha mente ou algo assim, só sei que é meu.



Este é meu!

Boys Don’t Cry

Eu diria que estou arrependido
Se achasse que isto faria você mudar de idéia
Mais eu sei que desta vez
Eu falei demais
fui indelicado demais
Eu tento rir disso tudo
cobrindo com mentiras
eu tento rir disso tudo
escondendo as lágrimas em meus olhos
Pois garotos não choram
garotos não choram
Eu me desmancharia aos seus pés
mendigaria seu perdão
imploraria a você
mas eu sei que é tarde demais
e agora não há nada que eu possa fazer
por isso eu tento rir disso tudo
cobrindo com mentiras
eu tento rir disso tudo
escondendo as lágrimas em meus olhos
Pois garotos não choram
Eu diria a você
que te amava
Se achasse que você ficaria
mas eu sei que é inútile você
foi embora
Julguei mal o seu limite
fiz você ir longe demais
te subestimei, não te dei valor
pensei que você precisasse mais de mim
Agora eu faria qualquer coisa
para ter você de volta ao meu lado
mas eu só fico rindo
escondendo as lágrimas em meus olhos
Pois garotos não choram garotos
Garotos não choram
Garotos não choram.

sábado, 2 de agosto de 2008

Fragmento por CL

— E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primei o de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvaç o para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.


E fazer o que para garantir o futuro?


Tudo. Tudo que elabora informação, conhecimento, saber-fazer, que é veículo para a emoção. Tudo que é para o ócio, para o lazer, para o entretenimento. Tudo que é melhorar a vida do mundo, diminuir suas dores, curar suas feridas, apaziguar seus conflitos. É tempo de comunicação e de informática, de saber mover-se nos "pântanos da informação", na Internet, nas ruas, em todo lugar, pesquisando, compilando, hierarquizando, organizando, gerando; materiais-multimídia, multissensórios, pós-cognitivos. Peças de comunicação não lineares, multidimensionais. É tempo de turismo, de brincar e de aplaudir, de dar vazão sistemática ao gênio criativo e à sensibilidade, de ver e de sentir o humano que há além da superfície das coisas e em todas as coisas É tempo de biologia, de genética e de medicina, de responder humanamente à dor, ao ciclo vital, salvando vidas perdidas, melhorando as vidas cotidianas, integrando o homem ao mundo. É tempo de agricultura, de ecologia e de meteorologia, de entender os ciclos naturais e se aproveitar deles, jogando mais sutilmente o jogo da natureza, acabando com a coprofagia e com a inanição. É tempo de leis, do império da justiça, onde todos os indivíduos estarão garantidos em seus direitos humanos e sociais e também onde todos estarão garantidos contra os direitos dos indivíduos. É tempo de ressignificar a própria justiça, de fazê-la compatível com os valores mais elevados da espécie humana. E, também, é tempo de torná-la mais ágil, equipada e distante dos nichos de poder corrupto. É preciso que as coisas sejam orientadas por novos paradigmas de existência, algo que dê sentido humano ao fazer trabalho, fazer ensino, fazer amigos, fazer amor. Enfim, o mundo continuará precisando de tudo que sempre precisou, mas muito mais, e mais profundamente entrelaçado com o concreto, comprometido com a humanidade das coisas. O mundo continuará sempre à procura daqueles capazes de redescreverem o próprio mundo, emprestando cores e sabores novos ao presente, passado e futuro.

Quanto a você, note que já mudou. Um alguém normal dos dias atuais, já conhece mais do universo do que Galileu, tanta matemática quanto Newton, quase toda a psicologia de Freud... Alguém normal já conhece o clone chamado de Dolly ou, quem sabe, um embrião que, agora amigo seu, foi concebido num tubo. Alguém normal já fala ou entende fragmentos de pelo menos três idiomas; as novelas falam espanhol; a MTV fala inglês... Já opera máquinas programáveis que vão de rádio-relógios aos descendentes superiores de Hall 9000. Alguém normal já esteve, ouviu, uma centena de países, um milhão de lugares, talvez até alguns planetas e estrelas... Ora, esse alguém é um ser muito distinto daquele que habitava esta terra cem anos atrás, há mil ou há dez mil. Tem um pouco mais de habilidade do que a necessária para a construção de ferramentas, ainda que seja com condutores e fios. Você evoluiu. Só que, agora, aquele quantum de conhecimento que demorava uma geração para ser codificado, bem... agora ele acontece todos os dias, todos os instantes, até quando você apenas escova os dentes ou espera o elevador. Não fique nervoso, é o seu sistema nervoso que é assim, mais ágil, mais “ligadão”. Alimente suas sinapses, não tenha medo de pensar, de agir. Não tenha medo de você, do que é (in)capaz. Às vezes pode dar vertigem, mas você acaba se acostumando. Seu cérebro não vai estourar sua caixa craniana. Take it Easy. Be happy. Não dê tanta importância à incerteza do mundo e você
amanhã. A propósito, quantos quilos você tem?




Por não estarem distraídos

Clarice Lispector

Havia a levíssirna embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê por que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa dos carros e das pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho das águas deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem, juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca o deserto da espera já cortou os fios. Tudo por não estarem mais distraídos.

A maior distância nos divide
Não por que você é desatenta ao meu amor quando fico diante de você,
Mas por que nós nos amamos,
Sabendo que o destino nos manterá sempre separados.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sky-HeLL

Você me diz que se pudesse voar nunca mais desceria,
você só tem olhos para aquele azul,
aquele azul o azul do céu.